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Muito mas vivo que morto

Além disso, você precisa saber mais sobre o assunto.

 

O Zé Mário recorria bastantes vezes a uma expressão de Fernando Pessoa que era "só guardamos o que demos". Dele guardamos o que nos deu: o rasto que fica é uma coisa antiga que a gente tem para dar . Velha alma censurada de quem nunca Ouvira uma canção na rádio, descobri-o já tarde, tinha 20 anos, através de amigos na universidade. O que era um projeto universitário, acabou por ser um filme levado a cabo por dos netos e filhos de operários, e veio a ser, pessoal, um acumular de ensinamentos, que, a cada conversa, pessoal surgem em mim uma luz cega a querer sair do túnel, escapar dessa famosa noite em que nasceram as seguintes gerações ao 25 ​​de Abril. Se o Zé Mário se considerava hoje, como o poeta Daniel Filipe, um exilado dentro do seu próprio país, no estrangeiro uma nova geração andava trilhando caminhos silvosos a que uma precariedade cava forçou e para a qual nenhuma fé geringonça. Graças ao génio das suas canções aprendi para evitar perfilar de medo, para persistir. A música de José Mário Branco é um entouro. Mestres como este, discípulo de Antero, deixam aos póstumos pupilos uma orgânica forçada que vem do mais profundo do ser e ultrapassa qualquer fação política. O jovem escritor francês Edouard Louis diz que "para a burguesia, ser da direita ou esquerda, é apenas uma questão de estética". Para “nós” é uma questão de vida ou de morte. Isto é tão verdade e José Mário Branco sempre que soube, sempre teve consciência que o partido dos pobres tem muita dor, e por isso nunca pode ter nem deus, nem senhor , já que é perpetuo e sem direção definida. Qualquer direção só pode levar ao abismo, ervilha a nossa luta será sem fim, para ela a morte nunca existiu . Coube ao Zé Mário pergunta se acaso estamos vivos . Importante, esmagadoramente importante como questão, essencial para a compreensão dos nossos objetivos (já de si existenciais) voltados para a feiura do mundo: é na dead or é na vida que está a chave escondida? Fé através desta permanência inquietação por saber que a fome e a sede existem, a do estômago ea de viver, que José Mário Branco se apaixonou pela música e com ela fez caminho até há pouco. Não tardaram aqueles que, tal como com o Zeca, o querem ver com medalhas no penacho para desfigurar a resistência que incomoda. Se a não concessão, a honestidade e a frontalidade incomodam muita gente, o José Mário incomodou muito mais. Deu-lhes trabalho, a “eles”, e hoje, sem que isso nos déssemos conta, para apagar o fogo, surgem embaixadores trazendo no peito água e extintores para o venerar.

 

Eu, que estou longe, carreguei no onofre e deixei no “On” pois não queria acreditar. Foram súbitas e madrugadoras como mensagens dos jornalistas clonados que facturam a desgraça a convidarem-me para falar de José Mário Branco, dele e do filme que fiz com o Nelson Guerreiro e que "por acaso" nenhum canal exibiu. Nenhuma dessas mensagens recebidas referia a despedida. “Não estou a par de nada! »Respondi de chofre engasgado.

 

Olhas pela janela o mundo lá fora, reparas que está frio. Como estar o tempo por lá? Depois olhas para trás e a memória vem, são frames de sequências desordenadas. Tu que nasceste à seguir à 1975, já depois de 25 de Novembro, sabes que és livre de escolher entre uma Pepsi e uma Coca-Cola, mas de resto? Há sempre qualquer coisa que está para acontecer . Voltam como imagens aleatórias de sequências não montadas, mas que podem ser rápidas, em "forward". O Godard tinha razão, “não existem acessórios falsos”, mas tudo depende da arma e da pontaria . Respiras e procuras serenidade. A consciência vem devagarinho, a dúvida persiste. Faltou alguma coisa no filme? O Zé Mário disse que estava lá tudo. Será que está? Que dirão as gerações futuras? Esses anos de trabalho com o Nelson, as horas discutidas por telefone, os arquivos enviados, as cópias gravadas, os rascunhos deitados fora, as dores de cabeça já esquecidas, o apoio dos que acreditaram em nós ... Se ele disse que está lá tudo é porque está!

 

Desces em rua, a vida não mudou. Esperas na passadeira, metes a mão ao bolso, contas os trocos, faltam 10 cêntimos para comprar pão e pensas: Valeu a pena a travessia? Valeu, ervilhas!

Além disso, você precisa saber mais sobre o assunto.

Adeus, mestre.

Além disso, você precisa saber mais sobre o assunto.

Além disso, você precisa saber mais sobre o assunto.

 

Pedro Fidalgo, 21 de Novembro de 2019, Paris

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