As canções de Dominique Grange acarretam em si marcas do Maio de 68. Exprimem nos dias de hoje a mesma vontade de resistência a todas as formas de opressão. Acompanhadas de desenhos de Tardi, as suas canções evocam os mais recentes movimentos sociais em França e as suas aspirações revolucionárias.

NÃO APAGUEM OS NOSSOS RASTOS!

 

Este filme é autoproduzido no intuito de garantir maior liberdade de tom e forma. Não apaguem os nossos rastos! é uma obra militante ao mesmo tempo que um documentário cinematográfico. O filme foi rodado pelos próprios meios do realizador e com a ajuda técnica e imprescindível de amigos voluntários. Para que o projeto chegue a bom porto, o realizador decidiu-se por uma autoprodução solidária e participativa, a única capaz de ultrapassar diversos obstáculos financeiros dos quais depende a pós-produção e o tratamento deste filme com carácter político.

Este documentário, realizado por Pedro Fidalgo, surgiu da sua vontade de continuar a filmar a História através da canção de protesto, no seguimento do filme Mudar de Vida, José Mário Branco, vida e obra correalizado com Nelson Guerreiro e que contava a recente história de Portugal através do trabalho do cantautor. O realizador escolheu fazê-lo desta vez com Dominique Grange, também ela cantautora de protesto, porque as suas canções transportam nelas as marcas do movimento social que foi  Maio de 68 até aos nossos dias.

Porque não devemos deixar apenas aos meios de comunicação de massa o monopólio da atualidade, porque é importante que os cineastas possam realizar filmes sobre a nossa história em curso, apelamos a um financiamento solidário, o único capaz de tornar possível este tipo de filmes produzidos com poucos meios.

A génese do filme

A primeira vez em que se encontraram, Dominique Grange ficou surpreendida que um realizador português, bastante mais jovem, quisesse fazer um filme através do seu percurso. Contou-lhe que uma das suas canções mais emblemáticas, Les Nouveaux Partisans (escrita em 1970), tinha sido traduzida em Portugal e cantada durante a Revolução dos Cravos. Qual não foi a surpresa quando Pedro Fidalgo descobriu que a canção tinha sido precisamente gravada pelo grupo G.A.C. do qual fazia parte José Mário Branco sob o título Até à vitória final. Também foi com algum prazer que descobriram ter um “adversário” em comum: Nicolas Sarkozy (entre outros!). Era o Ministro do Interior durante o movimento contra o Contrato Primeiro Emprego e outras reformas de desigualdade, mas também era quem queria “liquidar a herança do Maio de 68 de uma vez por todas”. Em resposta aos discursos de Sarkozy, Dominique compôs uma canção que dá agora título ao filme: N’effacez pas nos traces!. Assim, o realizador começou a seguir de perto o percurso musical de Dominique Grange, nomeadamente o álbum Les lendemains qui saignent, que o impressionou bastante. As canções, acompanhadas de textos lidos pelo desenhador Tardi, marido da cantora, fazem parte do repertório antimilitarista, sendo algumas compostas por ela mesma para o espetáculo Putain de Guerre!, montado em 2014, com o grupo Accordzéâm. 


Certo dia, Dominique pediu a Pedro Fidalgo para a acompanhar a Grenay, na antiga Bacia Houillier, com o objetivo de filmar um concerto em memória das 42 vítimas da catástrofe mineira de Liévin em 1974. Assim começou este filme. O realizador seguiu Dominique Grange na preparação do seu último álbum, filmando ensaios e concertos. Entrou na intimidade da personagem passando muito tempo juntos a conversar sobre o seu percurso militante e musical, por vezes com o seu companheiro de vida, Tardi. O casal é indissociável na vida privada, política e obrigatoriamente artística, tornando-se impossível não integrar no filme o trabalho do desenhador. Outras personagens aceitaram participar no filme como Oreste Scalzone, Hellyette Besse, Maurice Montet, Brigitte Gothière, Djamila Lesmasle, e claro, os músicos do grupo Accordzéâm. 

Este filme debruça-se também sobre as recentes lutas. Tanto para o realizador como para a cantautora é importante que o filme se insira na atualidade, pois Dominique Grange define o seu trabalho como um «compromisso perpétuo». O slogan de 1968 «Isto é só o início, continuemos a luta!» repercuta-se tanto nela como em nós. Foi neste estado de espírito que Pedro Fidalgo filmou e acompanhou o movimento social em França: CPE (2006), LRU (2007), Retraites (2010), Indignados (2011), ZAD (2014), Lei Trabalho e Nuit Debout (2016), Parcoursup (2017), Coletes Amarelos(2019). Estes arquivos do presente entrecruzam-se e misturam-se com imagens e canções de Dominique Grange, mas também com desenhos de Tardi. Trata-se de realçar as lutas do passado juntas, e rechear delas o real no presente.

O filme é autoproduzido, dinâmica apreciada tanto a Dominique Grange como pelas outras personagens. Não é a primeira vez que o realizador toma esta decisão. Em Portugal, o filme Mudar de vida, José Mário Branco, vida e obra, correalizado com Nelson Guerreiro, foi concebido desta forma. Os realizadores explicaram aos intervenientes e ao personagem central que tencionavam usar material emprestado ou financiado por eles próprios. A relação com as personagens não podia ser mais rica, intensa e verdadeira. Chegados ao final do processo de rodagem, apelaram a uma participação coletiva através de uma plataforma na Internet no intuito de financiar a utilização de arquivos, a montagem e o resto da pós-produção.  Assim, conseguiram terminar o filme e houve uma implicação do público na sua difusão: o filme saiu em sala e foi projetado de Norte a Sul de Portugal. Também houveram​ projeções no estrangeiro, o que valeu várias distinções, nas quais o Prémio Sophia 2017 para melhor documentário de longa-metragem.

Cheguei a França em 2005 no âmbito de um intercâmbio universitário. Inscrevi-me na Universidade de Paris 8/Vincennes-Saint-Denis e, alguns meses após a minha chegada, o movimento contra o CPE e a Lei pela Igualdade de Oportunidades oscilaram no meu percurso.  Nunca tinha visto algo assim, este movimento social fez-me compreender melhor a sociedade francesa do que cem festas de integração Erasmus. Chegava de Portugal e, para mim, as marcas do Maio de 68 pareciam-me presentes nos slogans, nas atitudes, nas reivindicações do meio estudantil que frequentava. Foi durante a mobilização e a ocupação da universidade que pude ver o filme Ghetto Experimental de Jean-Michel Carré (1973) e que ouvi pela primeira vez uma canção de Dominique Grange em banda-sonora. No filme, dezenas de grupúsculos desejam um mundo novo, manifestam, militam e, de repente, a voz de uma rapariga, apenas acompanhada de uma guitarra, canta Abaixo o Estado Policial! (A Bas l'Etat Policier!). Esta canção ficou-me gravada na memória como uma emanação do passado, mas que era ao mesmo tempo uma expressão do presente que então eu estava a viver. Para além disso, o filme evoca a aventura de Vincennes da qual a minha universidade era herdeira direta. Também foi a partir deste período que comecei a documentar a minha motivação política e os movimentos nos quais pude participar. Câmara na mão, queria ser como os realizadores e coletivos que acompanharam o Maio de 68: Godard, William Klein, os coletivos Slon, Medvekine, o Grupo Dziga Vertov... Referências banais para um estudante em Cinema, mas que me pareciam ganhar sentido quando participava na minha primeira manif selvagem ou na minha primeira barricada.

O filme

Dominique Grange recebe-nos em casa. Fala-nos do seu percurso e lutas políticas. Através de flashback, viajamos no tempo.  Estas idas e voltas são estruturadas por imagens de arquivo fílmico, sonoro, artigos de jornal animados e, como é óbvio, pelas suas canções. Pouco a pouco, passamos da história pessoal e familiar à memória coletiva, graças aos desenhos de Tardi que acompanham o resto da matéria fílmica.

Seguindo Dominique Grange descobrimos os lugares, os arquivos, mas também as personagens que a acompanharam em diversas lutas. Trata-se sempre da mesma mulher com o mesmo temperamento rebelde. A «miúda» que cantava nas fábricas ocupadas em 68 não é nenhuma heroína, apenas uma resistente que recusa compromissos e rendições. Por outro lado, acompanhamos Dominique em estúdio, onde grava com o grupo Accordzéâm, 50 anos depois, um livro-disco: Chancun de vous est concerné. Por vezes, Dominique ensaia em casa, onde encontramos Tardi e os filhos, adotados no Chile. Encontramos a personagem na sua intimidade familiar e descobrimos como trabalha com os músicos.

A última parte do filme é repleta de encontros: com Brigite Gothière, co-fundadora da Associação L214, que milita pelos direitos dos animais. Brigitte e Dominique falam-nos da relação que há entre a luta de classes e a causa animal. Dominique e Tardi encontram o militante anarquista e pacifista Maurice Montet na Radio Libertaire. Explicam a importância do espetáculo antimilitarista Putain de guerre! no contexto atual. Oreste Scalzone e Dominique falam-nos do direito ao asilo num café de uma rua típica de Paris e da extradição dos exilados italianos como Paolo Persichetti e Cesare Batisti. Dominique canta no Jargon Libre, biblioteca anarquista onde se encontra Helyette Besse, ex-prisioneira política condenada por cumplicidade com o grupo Ação Direta. A cantautora também encontra uma carta que lhe foi enviada há 40 anos por Djamila Lesmale. Dominique nunca respondeu. As duas mulheres encontram-se através do filme no bairro da Goutte d’Or onde Dominique Grange militou com o Secours Rouge e através do qual Djamila, apenas com 7 anos, a ouviu pela primeira vez cantar. Todos estes encontros permitem relacionar as diferentes causas pelas quais Dominique militou e continua a militar.

Para terminar, Dominique faz alusão aos grandes movimentos revolucionários desde 1789 à Comuna de Paris, descrevendo-os como «rios subterrâneos» que ressurgem para irrigar as lutas de hoje e de amanhã, como já tinha sido irrigado o Maio de 68.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Destino do filme:

 

Este documentário é produzido para o cinema, lugar onde podemos ver filmes sozinhos ou acompanhados na melhor qualidade sonora e visual, embora se aceite todo o tipo de difusão. Privilegiamos o cinema porque é um lugar propício ao debate, pois prolonga a reflexão e permite encontros. Esperemos que no final de cada projeção possam haver partilhas de ideias.

O realizador agradece a Dominique Grange pela sua confiança e disponibilidade, assim como a Tardi e às Ediçoes Casterman que o autorizam a reproduzir, a titulo gracioso, desenhos de obras do mesmo.

 

Um agradecimento especial a Renaud Drovin (imagem), Tristan Philippot (som) et Lucile Fanton (produção) pelo apoio técnico e moral.